Arquivo da categoria: Torquato Neto/Hélio Oiticica

hélio oiticica, 1973

helio-oiticica

porisso

quando penso q devo e quero dizer algo sobre

TORQUATO penso em quanto como e/ou não dizer nada

Importa:

citar ARTAUD (leia o q lhe envio):

cura = veneno:

mais amei e disse e fiz quando com ele

fui para LONDRES e quando brigamos e negamo-nos e escrevi

algo em BRIGHTON:

tudo o mais fica postumamente (pustulento)

e junta-se à bosta choradeira homenageante:

well! o q é

bacana e adorável no q vocês fizeram foi fazer o livro

tão claro e limpo e vital quanto à clareza do AUGUSTO no

texto no livro:

não mostram moleza sentimental (tão

nossa!) (tão coisas nossas nos meios mais esclarecidos

nossos!) ou carpidagem:

ANA É ANA:

e tudo o mais q

me faz mais amar vocês:

e o q pensar quando se pensa

e vê q TORQUATO (ao contrário até de MIM!) não era digno

da mesa nem dos “malditos” da nossa paupérrima

“casa grande”:

? ? ? ?

um espécie de MIDNIGHT RAMBLER

atrás da porta e do conforto desconfortável do contentismo

suado:

hélio oiticica

new York

NTBK 4/73

 

 

 

Esse documento, escrito em Nova Iorque em 1973, se refere ao livro últimos dias de paupéria organizado por Waly Sailormoon após a morte de Torquato. O livro reúne, dentre outros textos, parte do que Torquato publicou na coluna Geléia Geral do jornal A última hora.

Como disse Décio Pignatari numa entrevista concedida a Régis Bonvicino em 1982, o repertório cultural de Torquato era mais amplo, e por isso não pode hoje ser enquadrado e adaptado ao Tropicalismo e a nenhum outro movimento. A radicalidade de seu trabalho ultrapassa tudo isso. Por isso as palavras de Hélio, segundo as quais ele “não era digno da mesa nem dos “malditos” da nossa paupérrima “casa grande”.

[Isadora Marques]

1 comentário

Arquivado em Torquato Neto/Hélio Oiticica

torquato neto em um lugar qualquer

Torquato Neto em um lugar qualquer

1) No ensaio A comunidade que vem, Giorgio Agamben diz que o ser que vem é o serqualquer, aquele que é condicionado por um desejo, que é o acontecimento de um exterior, e que expõe seu ser-tal, sua propriedade íntima, sua própria pertença. E a partir dessas afirmações tento pensar aqui o qual-quer do texto de Torquato Neto, intitulado Almondegário, e publicado em setembro de 1971 na coluna “Geléia Geral”. Só em torno do título do poema já seria possível levantar uma discussão a respeito do qual-quer. O poeta brinca com o sufixo ário que, entre outras significações, remete a uma ideia de agrupamento, de um conjunto ao qual determinados objetos pertencem; e, nesse caso, é possível pensar em um conjunto daquilo que é comum. A primeira linha do texto já vem com uma força intensa que causa certa perturbação, que nos coloca fora de nós: “Ponha a boca no mundo: assim não é possível”. Parece ser uma ordem a que se exponha algo, como se somente através de uma exteriorização fossem, no termo de Agamben, condicionadas novas possibilidades. O texto traz uma urgência, uma necessidade de exposição das vontades e dos desejos, e também das contradições e impossibilidades que surgem a partir deles.

Em um primeiro momento a leitura pode ser conduzida pela situação política do Brasil na época em que o texto foi publicado, já que havia a necessidade de pôr a boca no mundo, de manifestar as insatisfações em relação à ditadura. Mas, não querendo prender a leitura somente a essa interpretação vinculada aos problemas da década de 1970, para que seja possível cruzar os tempos, talvez seja possível reler o texto sob uma perspectiva que o distancie mais dos movimentos populares da época e dos grupos de resistência que, a partir de generalizações, enquadram e neutralizam o indivíduo sem, contudo, expor suas particularidades. Tanto que o poeta, no caso, não fez parte de nenhum movimento de protesto.

Para Agamben, qualquer é um termo genérico que destaca um ser não pensado, que pode ser todos os outros. Mas devido a esse determinado destaque movido por uma escolha, e por isso por uma vontade, o ser não é indiferente, já que é condicionado por um desejo. E é pelo desejo que o serqualquer se volta à sua própria pertença, e não àquilo que o faz pertencer a um determinado grupo. De acordo com ele, na singularidade qualquer:

o ser-qual é tomado independentemente das suas propriedades, que identificam sua inclusão em determinado conjunto, em determinada classe (os vermelhos, os franceses, os muçulmanos) – e considera-se que ele não remete para uma outra classe ou para a simples ausência genérica de pertença, seja ela qual for, mas para o seu ser-tal.                                                               (AGAMBEN, 1993, p. 12).

2) O desejo é aquilo que condiciona a singularidade do qualquer, e esse movimento que faz com que o objeto se volte para seu próprio ter-lugar é o movimento erótico (AGAMBEN, 1993, p. 12). No ensaio “A santidade, o erotismo e a solidão”, que está em O erotismo, Georges Bataille diz que o erotismo é aquilo que deixa o homem na solidão, que é definido pelo segredo, e que a experiência erótica situa-se fora da vida ordinária. E mesmo com uma atenuação da interdição, o erotismo permanece como algo de fora (BATAILLE, 1957, p. 396 e 397). Pode-se perceber, assim, que a percepção erótica exterioriza o objeto em sua singularidade qualquer, (no termo de Agamben) em seu ser-assim, e não a partir de simbolismos e significados mais elevados sob os quais normalmente são determinados.  A singularidade qualquer expõe a propriedade íntima do objeto, que é colocada em primeiro plano, e não por trás de uma superioridade divina. Porém, há sempre a necessidade de se buscar uma essência para além do objeto. O puro transcendente das coisas não é o que está além delas, mas seu ter-lugar próprio. Para Agamben: “O transcendente não é, assim, um ente supremo acima de todas as coisas: o ter-lugar de todas as coisas é que é o transcendente puro.” (AGAMBEN, 1993, p. 20). O lugar da pura transcendência das coisas é o lugar onde não se sofre por uma falta de algo que esteja além do próprio ser, porque nesse lugar a possibilidade de ter sua existência fundada em algo superior não foi anunciada ao ser-qualquer. E a pena consequente dessa ausência divina não é mais nada que a alegria de ser condicionado pelo próprio desejo.

3) A alegria era uma das propostas do manifesto de Oswald de Andrade, como passou a ser também do movimento tropicalista. O sonho utópico de condicionar a formação de um povo brasileiro através, não apenas da alegria caricata do carnaval e do futebol, mas da alegria de um povo que pudesse aparecer simplesmente em sua singularidade qualquer, que fosse dominado por sua pura e própria potência de pensar, e que pertencesse à própria pertença. Talvez fosse esse o estado do índio brasileiro antes do descobrimento, de viver sua cultura despida de toda culpa, moral e dogmas da civilização; como disse Oswald de Andrade no “Manifesto Antropofágico”: “Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade”, e também: “a alegria é a prova dos nove”, que virou um dos versos do poema Geléia Geral de Torquato Neto, musicado por Gilberto Gil (NETO, 1982, p. 415).

Não se trata de caracterizar a identidade de um povo e nem de defini-lo a partir de generalizações superficiais. A singularidade qualquer não se relaciona a uma identidade e nem a um conceito. Ela não está confinada a um limite, mas a um limiar que estabelece um contato entre a singularidade e o exterior. Por isso, o qualquer é o acontecimento de um exterior, que não é um espaço à parte, mas a passagem, o acesso¹. O limiar não é outra coisa em relação ao limite, é a própria experiência do limite. O qualquer seria, então, aquele que está na passagem, no lugar onde o limiar se apropria do limite, a própria incorporação do limite. E essa incorporação da experiência limite parece ser a experiência erótica, que desnuda o homem, e o coloca entre a história escrita e condicionada a partir de Deus, e a história do qualquer, do ser que vem gozar da alegria de expor sua própria existência, e que não está debaixo de uma representação do ideal do Belo, do duelo Bem X Mal e da Moral. Novamente citando Oswald de Andrade no Manifesto Antropofágico: “O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior”.[1]

4) Agamben diz que o bem não está acima e nem ao lado do mal, que o autêntico não é predicado perfeitamente análogo ao inautêntico, e só através dessas afirmações é possível compreender o sentido da ética. Segundo ele: “A ética só começa no lugar preciso em que o bem se revela como uma apreensão do mal e em que o autêntico e o próprio revelam ter o inautêntico e o impróprio como conteúdos exclusivos” (AGAMBEN, 1993, p. 18).

A representação parece prescindir da separação das coisas, quando o autêntico e o bem têm lugar separado, e se valoriza a definição do belo. Deste modo é impossível uma apropriação do objeto em sua totalidade de possibilidades, que inclui sua deformação, seu lado feio, o impróprio, o desejo. O bem não está oposto ao mal, ele o apreende. Um não existe sem o outro, assim como a verdade só se manifesta dando lugar à não-verdade. E esta dependência que o lado belo e ideal das coisas têm em relação ao seu lado impróprio e não-ideal é a sua singular propriedade íntima. O ter lugar das coisas não está em que elas tenham um lugar separado, mas apenas seu ter-lugar próprio, não no plano do belo, mas no plano em que as coisas se contaminam.

No ensaio “A linguagem das flores”, que se encontra em A mutilação sacrificial e a orelha cortada de Van Gogh, Georges Bataille discute a simbolização que atribuímos às coisas a partir de seu aspecto, de sua forma inteligível, que as diferem umas das outras. Na visão de uma flor, por exemplo, a visão superficial das pétalas é o que impressiona, mas, para o filósofo, é inútil desprezarmos a presença real inexprimível de sua obscuridade, de sua parte feia, do caule desfolhado, da sujidade do pólen. As flores são ligadas a significados, sendo o mais usual deles o amor. Mas essa simbolização não necessariamente surgiu de uma observação da sensibilidade humana, e sim de uma propriedade distinta atribuída à flor que se cristalizou pela força do hábito, e que, por mania, os homens se limitaram a amplificar na busca de uma beleza ideal. Bataille usa a metáfora de que a mais bela flor, depois de seu longo tempo de esplendor, apodrece impudicamente ao sol e volta ao seu primitivo esterco. E afirma que:

Com efeito, parece que o desejo nada tem a ver com a beleza ideal ou, para maior exactidão, apenas se exerce para sujar e murchar esta beleza que só é um limite, um imperativo categórico para tantos espíritos baços e bem comportados. A mais admirável das flores seria pois representada, não como expressão mais ou menos insípida de um ideal angélico, como diz o palavrório dos velhos poetas, mas, pelo contrário, como um imundo e incontestável sacrilégio. (BATAILLE, 1994, p. 34)

5) No poema Cogito, publicado em 1971, Torquato Neto parece definir um sujeito qualquer em sua simples existência, sem nada além dela mesma, e sem excluir seu lado obscuro. Diz o poema:

Eu sou como eu sou

pronome

pessoal intransferível

do homem que iniciei

na medida do impossível

Eu sou como sou

agora

sem grandes segredos dantes

sem grandes secretos dentes

nesta hora

Eu sou como eu sou

presente

desferrolhado indecente

feito um pedaço de mim

Eu sou como eu sou

vidente

e vivo tranquilamente

todas as horas do fim.

(NETO, 1982, p.98)

O corpo que se permite viver a experiência erótica se expõe, se desnuda de todo ideal e de toda significação, se desprende de todo limite que não seja um lugar de acesso, um confim, uma passagem entre o desejo e seu lugar qualquer. Contudo, como diz Torquato em dois versos de seu poema Literato cantábile: “está vetado qualquer movimento/ do corpo ou onde quer que alhures.”

[Isadora Marques]

Referências bibliográficas:

ANDRADE, Oswald de. O manifesto antropófago.

AGAMBEN, Giorgio. A comunidade que vem. Trad. António Guerreiro. Lisboa: Editorial Presença, 1993.

BATAILLE, Georges. A mutilação sacrificial e a orelha cortada de Van Gogh. Trad. Carlos Valente. Lisboa: Hiena Editora, 1994.

BATAILLE, Georges. O Erotismo. Trad. Cláudia Fares. São Paulo: Arx, 2004.

NANCY, Jean-Luc. Resistência da poesia. Trad. Bruno Duarte. São Paulo: Edições Vendaval, 2005.

NETO, Torquato. Os últimos dias de paupéria. São Paulo: Max Limonad, 1982. (Org. Ana Maria Silva de Araújo Duarte e Waly Salomão).


[1] No ensaio Resistência da Poesia, Jean Luc Nancy afirma que a poesia não se limita a uma medida ou a um meio de acesso ao sentido, porém, ela só tem lugar ao se colocar nesse lugar de acesso, a fronteira que estabelece o contato com os possíveis sentidos. E, por isso, “A poesia é assim a unidade indeterminada de um conjunto de qualidades que não estão reservadas ao tipo de composição chamado ‘poesia’(…)”. (NANCY, p. 9, 2005).

 

Deixe um comentário

Arquivado em Torquato Neto/Hélio Oiticica

qual-quer

O blog-revista qual-quer tem por objetivo apresentar todo o material da pesquisa desenvolvida por esse grupo de Iniciação Científica em torno do procedimento e do pensamento poético-crítico de Ana Cristina Cesar, Cacaso, Hélio Oiticica, Paulo Leminski e Torquato Neto, sempre procurando armar uma indistinção, uma linha movente e heterogênea nas leituras dessa produção. Outro objetivo é implementar os trabalhos de composição de arquivo e de edição como partes fundamentais dessa pesquisa e desse exercício crítico. Assim, publicaremos também nesse espaço a revista experimental engrenagem, com responsabilidade editorial das alunas-pesquisadoras, com periodicidade bimensal a contar do dia 10 de novembro, 2012. Sejam bem vindos.

Almondegário

1 – Ponha a boca no mundo: assim não é possível. Ou então feche o riso e aperte os dentes de uma vez. Ponha a boca no mundo: somente assim é possível, louca, qualquer coisa louca de uma vez.

2 – Qual
Quer?

3 – Atenção para o refrão: tudo é perigoso etc. Atenção para o refrão: tudo é divino, maravilhoso. Atenção para o refrão: atenção para o samba exaltação. Atenção.

4 – Meu amigo preferido não me quer ferido pelo chão. Meu amigo mais incrível nunca foi possível em minha mão. Minha amiga mais maluca funde a cuca só pra me dizer que não. Minha amiga mais bonita é meu Irmão.

5 – Torno a repetir: ai, ai, ai. Torno a repetir, meu amor: ai, ai, ai. Onde é que você mora, em que cidade escondida, em que muda, qual Tijuca? Lá também quero morar.

6 – Qual
Quer?

7 – Quero porque quero este baião, baião de dois, feijão com arroz, pão seco de cada dia, negra solidão. Quero porque quero este balão, corado, fresco o bem machão: coragem, peito, coração.

8 – Ponha boca no mundo.

9 – Eu não.

10 – Todo dia é dia, toda hora é hora: quem samba fica. Quem não samba vai-se embora. E mais: todo dia menos dias mais dia é dia D.

[Torquato Neto]

Almondegário foi escrito por Torquato Neto e publicado em setembro de 1971 na sua coluna Geléia Geral do jornal A última hora. E foi a partir desse texto que nosso grupo de pesquisa pensou em nomear o blog de qual-quer. Sua leitura nos causou certo impacto; algo como uma perturbação que nos descentraliza, nos coloca fora de nós. “Ponha a boca no mundo” é uma expressão forte que pede um movimento, um fazer, um gesto. Uma ação qualquer e, por isso, comum, que se constitui com o sentido de ‘trabalhar junto’, o de uma comunidade onde cada individualidade tem a possibilidade de agir, de se manifestar e pôr a boca no mundo. E é nessa perspectiva que temos trabalhado para produzir uma pesquisa que se mova em direção ao conjunto de todos os objetos estudados, e que ao mesmo tempo faça cada um sobressair-se à sua maneira. Uma pesquisa que possibilite um encontro entre cada projeto, entre todos os tempos e afetos, e que se abra a outras leituras e imagens moventes, de modo a apresentar algo novo. [Isadora Marques]

Deixe um comentário

Arquivado em Torquato Neto/Hélio Oiticica, Uncategorized