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Sobre Hilda Hilst, Bertolucci e Marguerite Duras: Uma conversa (quase) incestuosa

Este ensaio tem como partida um ponto de encontro entre artistas aparentemente distintos e, por que não, distantes, pois fica visível e sensível a quem se sente tocado pelas obras a serem aqui tratadas que ao se observar os três em conjunto emerge um espaço comum. Falo do filme Agatha ou as leituras ilimitadas (Marguerite Duras, 1981), do livro Cartas a um Sedutor (Hilda Hilst, 1991) e o filme de Bernardo Bertolucci, Os Sonhadores (2003).

Apesar de ser o filme franco-ítalo-britânico o mais contemporâneo, este se passa em maio de 1968. Lá, as ideias estavam a mil e os personagens se destacavam pela sua postura quanto pela intensidade com que viviam as relações. Ele conta a história de Theo e Isabelle, dois irmãos cinéfilos que, em meio a uma manifestação durante a revolução, conhecem Matthew, americano que passa uma temporada na França, e o convidam para ficar em sua casa. O estrangeiro vai, aos poucos, descobrindo uma relação um tanto curiosa entre os irmãos, que dormem juntos e nus, que sentem prazer e acham graça ao verem, um ao outro, nos momentos mais íntimos de sexualidade. Contudo, fica claro que essa relação fraterna mais íntima que o comum não chega à consumação de um incesto, é uma relação de amor para além da relação de irmãos.

É importante ressaltar o termo comum para não ser tratado como sinônimo de normal. Desde a mitologia grega a relação de incesto é tratada como condenável, mas aqui o incesto não cabe. Cabe o amor para além do fraterno e aquém da relação sexual, o que me parece ser o ápice de cumplicidade nesta relação que vem de berço.

No longa de Duras, como na maioria de suas obras, o roteiro do filme é, também, epistolar. O ambiente do filme é o mar que a narrativa abriga, estabelecendo a relação dos personagens e seus momentos com esse mar, momentos esses que demonstram uma preocupação fraterna, no mais comum dos sentidos, entre eles. O tempo inteiro nos deparamos com uma irmã falando com seu irmão, dando uma liberdade para o subentendido. O próprio título, “Agatha e as leituras ilimitadas”, sugere uma interpretação livre do filme, uma leitura que ganha forma a cada frase narrada diante das imagens ou diante de Agatha. Ela revela, com termos como “nossa infância” e “nosso pai ainda era vivo”, essa relação de irmãos, contanto com a abertura que o próprio título dá para ler o filme de várias formas, de modo a fazer com que o espectador se questione se é mesmo disso que a narrativa trata. Mais à frente tudo fica claro, dando abertura apenas para a interpretação do não-dito, que acaba por torna-se menor em Duras e maior em Bertolucci.

A perspectiva que me invade ao assistir Agatha e as Leituras Ilimitadas é a de que este não-dito habita a narrativa tanto quanto o que está exposto, dando margem à interpretação do leitor/espectador através dos sentidos. Através do “vou parar para pensar, porque senti”, mas não a ponto de ignorar toda a racionalidade da obra preocupada com a moral. Estando este ponto, então, na perfeita sintonia que transita entre os dois filmes. Não há a preocupação com o politicamente correto, mas com a moralidade do ser humano e, sobretudo, com o amor. Como a própria Marguerite Duras diz em entrevista, “O que é belo a ponto de chorar é o amor. E mais ainda talvez: a loucura, a única salvaguarda contra o falso e o verdadeiro, a mentira e a verdade, a estupidez e a inteligência: fim do julgamento.”. Ou seja, o fim do julgamento é quase uma substância a estar presente no espectador das três obras em um só contexto.

O ambiente no longa-metragem francês é suave, é a imagem de um mar tranquilo e a narração de uma relação que, menos comum que fosse, seria bela e não despertaria o estranhamento que causa o tópico da relação entre irmãos que vai além do fraternal, de fato. Ele trata desse amor impossível e condenável, da fuga desse amor impossível e condenável, de forma a ilustrar a obra do diretor italiano.

Em Os Sonhadores, Theo e Isabelle estão acostumados a fazer uma brincadeira em que um deles interpreta cenas de clássicos do cinema e, caso o outro não descubra o filme, paga uma prenda. Desde que Matthew foi morar com eles, entrou para a brincadeira e, ao errar o filme encenado, Theo estabelece como prenda que o novato transe com sua irmã. Em uma analogia com os diálogos no longa-metragem de Duras, quando é dito, sobre partir, ir “para longe das fronteiras do meu corpo”, pode-se interpretar a atitude do personagem de Louis Garrel como uma espécie de fuga do desejo.

É então que descobrimos que Isabelle era virgem, um momento de descoberta não só para o espectador do filme quanto para a personagem que, como Agatha, percebe a diferença entre o olhar e o toque do irmão e a sensação de estar com outro homem.
Em Duras: “Eu não sabia que havia diferença entre o olhar do meu irmão para o meu corpo nu e um olhar de outro homem para este corpo. Eu não sabia nada sobre isso, sobre meu irmão, sobre essas coisas proibidas, nem o quão adoráveis elas eram, veja. Nem o quanto elas, em extensão, estavam contidas no meu corpo.”

Depois desta cena, Isabelle e Matthew começam a ter uma relação amorosa e, nessa posição de constante espectador do que está acontecendo entre o novo casal, Theo parece começar a olhar para a situação com o mesmo olhar do irmão no longa a ser comparado aqui: questiona-se se o tratamento da irmã é, com outro homem, o mesmo que é para/com ele.

Outra passagem da narrativa de Agatha que ilustra o drama d’Os Sonhadores é quando a francesa diz “Você costumava trazer garotas para casa e eu ouvia como você dizia que as amava e às vezes eu ouvia como eles choravam pelo prazer que você as dava.” No filme de 2003, a personagem de Eva Green tem um surto quando percebe que Theo levou uma menina para casa e ouve as risadas dos dois no outro quarto.
Falando em drama, parece que o maior drama presente da mesma forma nos dois tópicos de comparação é a passagem em que Duras escreve “Eu apenas olho para você. Eu olho os seus olhos sob as suas pálpebras fechadas. Eu ainda não consigo nomear esse desejo, a vontade de tocá-los com as minhas mãos”.
Em seu filme, ela trata isto com a protagonista fugindo desse amor do irmão, indo embora sabendo que ele irá atrás dela sempre e dizendo que, desta forma, eles continuarão juntos. Em Os Sonhadores parece que isto não se resolve. Em certa passagem, Matthew pergunta à Isabelle o que ela faria se seus pais descobrissem sobre ela e Theo, e ela responde que se mataria. Mais à frente, seus pais chegam de viagem e se deparam com os três dormindo nus e entrelaçados no chão da sala. Chocados, se limitam a deixar dinheiro para a comida e vão embora. Quando Isabelle acorda e se dá conta de que os pais estiveram ali, puxa a mangueira do gás até sua boca, enquanto permanece deitada ao lado dos dois rapazes, até que todos acordam com o barulho das manifestações lá fora, onde Theo e Matthew tem uma discussão e o americano vira as costas e vai embora, de modo que os irmãos seguem juntos e inseparáveis, passando a impressão de que, mesmo com tudo o que aconteceu até então, estão juntos, mas ainda não sabem nomear ou como lidar com esse desejo.

Em contraste com o drama das obras cinematográficas, vem a literatura de Hilda Hilst. A autora trabalha com cartas de um irmão para a irmã, cartas eróticas e ousadas, que retratam inclusive o amor e o desejo sexual da irmã para/com o pai dos dois. No livro, o não-dito dá lugar ao explícito e o drama e o amor suave dão lugar ao erótico. Erotismo este que não necessariamente estava ausente nas obras citadas anteriormente, já que, de acordo com Georges Bataille, “Toda a operação do erotismo tem por fim atingir o ser no mais íntimo, no ponto em que o coração desfalece”, o que me parece ser exatamente o que atinge os personagens tanto de Bertolucci quanto de Duras.

A questão é que Hilst, que tem presente em sua obra todos os três conceitos de erotismo utilizados pelo filósofo francês, se utiliza, em Cartas de um sedutor, da obscenidade.

O personagem antinarrador estabelece outro personagem, Stamatius, que escreve cartas do irmão sedutor para a irmã Cordélia, de forma a expor toda essa relação, desta vez sim, nada comum tampouco normal, mas talvez natural, tendo em vista o que é narrado sobre a infância dos dois. Os irmãos do livro sabiam da intimidade sexual um do outro de modo aparentemente similar mas, em verdade, muito distante do que acontece com Isabelle e Theo. O antinarrador de Hilst fala à irmã com atrevimento, ainda que sem repressão por parte dela, de modo a questioná-la ou afirmar que já sabe de detalhes do que é íntimo dela, pegando este termo, íntimo, desde sua etimologia. Intimar, do latim intimare, representava “fazer penetrar em”. Não só no sentido físico e literal do termo em sua origem, a narrativa das cartas permite ao leitor penetrar em Cordélia de forma a conhecer seus desejos mais intensos e secretos, desejos estes que estão muito além do não-dito de Agatha e Isabelle.

Tal como este intimare da obra literária está além das personagens femininas dos filmes, o personagem masculino de Hilda Hilst vai além dos de Marguerite Duras e Bernardo Bertolucci, pois enquanto os irmãos dos filmes limitam-se a olhar, como diz o personagem de Duras, “Eu não lembro de… Não. Eu me lembro de ter te olhado. Nada mais. Nada mais além de ter te olhado. Olhado. Olhado até ter descoberto a identidade fenomenal da sua perfeição. Que eu sou seu irmão e que nos amamos”, o personagem de Hilst vai muito além desse limite, chegando a dizer, na página 85, “Ah! se fosses tu, Cordélia! Poríamos a fotografia de papai na nossa frente […] e nos chuparíamos, de cada lado uma fotografia de papai. Depois eu derramaria champanha na tua cona, que deve estar tão sequinha, coitada… ou não? […] e chuparia teus dedinhos do pé, um por um, os buraquinhos das tuas orelhas (ainda usas Calèche?) e o buraquinho da frente e o buracão de trás… vens, irmã, penso que te negas ilusões e as ilusões são os sustentáculos da vida”.

O que os personagens cinematográficos não negam são as ilusões, como Cordélia faria, mas é de supor-se que o irmão sedutor as tem por todos eles, concluindo a análise comparativa das três obras em um contraste perfeito do livro com os filmes, como se Hilda Hilst estivesse, como sempre esteve, à margem de tudo, radicalizando com a ausência de pudor e permitindo o contraste com Duras e Bertolucci: dizendo o que eles não disseram ou mostraram, mas não calaram em momento algum.

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