A câmera nacional de Sganzerla: um projeto estético e político a partir da ideia de subdesenvolvimento

Rogério Sganzerla

Segundo Rogério Sganzerla, se o cinema pudesse ser reconhecido enquanto arte, ele seria uma arte inferior, quase vulgar e, justamente por isso, teria o espaço necessário para ser visionário, popular e livre. Para tal, o cinema precisava ser discutido sobre todos os aspectos, desde o capital que era aplicado no processo de produção até o espaço concedido para a  exibição do filme. Transmitir, através da câmera ou da caneta, um pensamento crítico sobre o seu próprio fazer cinematográfico ou de seus colegas foi um exercício radical e exaustivo, mas importante para que desse a ver o seu procedimento. Em entrevista a Millôr Fernandes, Rogério afirmou que: ” […] Quando eu faço um filme, eu tenho mil problemas de subdesenvolvimento de produção e tal, então eu escolho o subdesenvolvimento não só como condição, mas, também como escolha de filme. […]”.

Com o compromisso de fazer um filme que fosse a expressão imagética verdadeira do seu pensamento crítico, longe de qualquer sentimentalismo autocompalcente, Rogério procurou desenvolver uma linguagem cinematográfica que fosse capaz de pregar a destruição de suas próprias ideias. Era uma forma de autocrítica, de provocação individual que, por sua vez, exigiria uma resposta do coletivo, pois era preciso pensar atrás da câmera, mas também à frente dela. Por isso, Rogério chamava atenção para o cinema que vinha sendo feito: um cinema como puro produto de mercado que reproduzia modelos de sucesso, feito por uma mesma “panelinha”. Para o cineasta, se o cinema é exercício e aprimoramento, seus recursos deveriam ser explorados e pensados de forma sofisticada e madura. Era preciso que o cinema nacional fosse contra a ideia de um cinema passivo ou formatado pela “indústria de televisão”.

Há mais tempo, os autores Theodor Adorno e Max Horkheimer, no capítulo O iluminismo como mistificação das massas, chamavam a atenção para a apropriação da obra de arte pelo mundo comercial, apontando que esse processo levaria os espectadores à apatia cultural, afastando-os da possibilidade de formação do pensamento crítico.  Ao efeito desse processo mercantil sobre à cultura deram o nome de “indústria cultural”. Segundo os autores, a indústria passou a viabilizar a obra de arte já impregnada pelos moldes dos bens de consumo, não sendo mais necessário reivindicar ao espectador outra espécie de fruição estética. Como consequência do processo de uma produção cultural deglutida, houve a desvalorização do pensamento do sujeito e, consequente, maior controle das instituições do capital sobre “as massas”.

Esse fluxo de pensamento dos autores e de Rogério entra em choque quando Adorno faz suas considerações sobre a posição do cinema dentro dessa ideia de “Indústria Cultural”. Para o autor, o cinema era percebido como o setor central da “indústria” e, consequentemente, provocador dessa atrofia do pensamento, uma vez que, por sua abrangência e poder de disseminação, representava um meio eficaz de manipulação. No entanto, é a partir das limitações do poder dessa mesma indústria que Rogério abre o espaço para o enfrentamento, empenhando-se a repensar o espaço da arte e, sobretudo, reivindicar maior autonomia para poder fazer cinema longe da influência da pura motivação do lucro.

Para Rogério, os cerceamentos pela “indústria cultural” e pelas políticas de financiamento foram impostos por aqueles que não desejavam o esclarecimento público ou por aqueles que não deixavam ele falar certas verdades com a câmera na mão. O “boicote”, como ele mesmo dizia, a que seus projetos foram submetidos, fizeram com que Rogério não abdicasse do desejo de estabelecer, através da sua crítica afiada e de seu olhar atento de diretor, o seu espaço de expressão político-cultural, pois acreditava que a única condição positiva para o ofício de cineasta era o exercício pleno de sua liberdade. Como resposta a esse sistema regulador, optou por fazer um cinema à margem, longe de facilitar qualquer definição pelos críticos e colegas que promoviam a cristalização dessa mesma indústria.

 [Débora Ferrol]

Referências bibliográficas

HORKHEIMER, M., e ADORNO, T. W., Dialética do Esclarecimento: Fragmentos filosóficos. Trad. Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

SGANZERLA, Rogério. Encontros. Organização Roberta Canuto. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2007.

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