leminski e a antipoesia simbolista

leminski

Perfeição só existe na integração/dissolução do sujeito no objeto.

Na tradução do eu no outro.

É por isso que você gostou tanto deste livro.

Você, agora, sbe.

Você, eu sou Cruz e Sousa.

(LEMINSKI, 2013:75)

 

 

O poeta Paulo Leminski contribuiu para a literatura brasileira dos anos de 1970 e 80 com seus poemas, prosas e ensaios que possuem uma escrita poética livre de qualquer rótulo. O cruzamento de gêneros textuais e a linguagem que leva humor e crítica para um mesmo plano nos revelam um material possível de ser lido e comparado aos poetas de outras épocas e que também possuíam uma linha crítica de pensamento, como Cruz e Sousa, Tristan Corbière e Jules Laforgue, poetas simbolistas cuja linguagem coloquial trazia um outro pensamento de poesia, algo mais transgressor e direto.

O primeiro mencionado acima, Cruz e Sousa (1861-1898), foi um poeta negro, filho de escravos e que devido ao contato com as sofisticações da casa-grande- o poeta aprendera ler e escrever com a esposa do proprietário de seu pai- pôde ter um destino diferente dos negros do Brasil escravocrata. Sua história e sua poesia fizeram Paulo Leminski produzir uma biografia intitulada “Cruz e Sousa- o negro branco”, publicada em 1983. Num trecho do texto, Leminski se refere ao poeta como uma espécie de desvio sociocultural do Brasil daquela época, exatamente como se dá a poesia:

Anomalia sociocultural no Brasil escravocrata do Segundo Império, exceção, desvio, aí temos a matéria-prima para um poeta. Afinal, o que é poesia senão discurso-desvio, mensagem-surpresa, que, essencialmente, contraria os trâmites legais da expressão, numa dada sociedade?

(LEMINSKI, 2013: 29)

Seu talento o levou a trabalhar com a companhia de teatro do português José Simões Nunes Borges, porém não como ator ou diretor, mas como ponto, a voz oculta que trabalha no subsolo soprando as falas para os artistas.  Não era fácil ser poeta negro como Cruz e Sousa num Brasil branco, elitizado e parnasiano do século XIX. Assim como esse espaço marginalizado do teatro pertencente a Cruz e Sousa, sua poesia ocupava também um lugar de desvio, tanto pela linguagem informal, quanto pelo conteúdo. Um exemplo disto é o poema “Cristo de Bronze”, trazido por Leminski na biografia, no qual Jesus Cristo é a figura da luxúria, do pecado:

Ó Cristo de ouro, de marfim, de prata,

Cristos ideais, serenos, luminosos,

Ensanguentados Cristos dolorosos

Cuja cabeça a Dor e a Luz retrata.

 

Ó Cristos de altivez intemerata,

Ó Cristos de metais estrepitosos

Que gritam como os tigres venenosos

Do desejo carnal que enerva e mata.

 

Cristos de pedra, de madeira, e barro…

Ó Cristo humano, estético, bizarro,

Amortalhado nas fatais injúrias…

 

Na rija cruz aspérrima pregado

Canta o Cristo de bronze do Pecado,

Ri o Cristo de bronze das luxúrias!…

(LEMINSKI, 2013:55)

O Cristo de bronze é descrito de forma simples, com palavras populares: algo bizarro, humano e da luxúria. A palavra era para o movimento simbolista algo de tanta importância que ela era o meio e a própria mensagem. Houve nessa fase um lado periférico do simbolismo, esse ponto fora caracterizado por Augusto de Campos, em seu texto “Antipoesia do simbolismo”, como “coloquial-irônico”. Essa “antiarte” não fazia parte da linha “sério-estética” de Baudelaire, Verlaine e Mallarmé. Estes trabalhavam a palavra através da sua musicalidade, mostrando esse movimento artístico da poesia que, para Leminski, é mais pertencente ao lado da música e das artes plástica que da literatura.

Mas este outro grupo desprestigiado, trazido por Augusto de Campos no texto, possuía uma posição marginal devido a sua linguagem, que permeava pelo humor e pela crítica no mesmo poema. Eram poetas que escreviam palavras gritantes cujo efeito funcionava como uma espécie de soco, causando no leitor um choque de imagens fortes e confusas.

Um destes poetas foi Tristan Corbière (1845-1875), considerado por Ezra Pound como “o maior poeta do período”, participou desta linha da antiarte devido ao uso de palavras informais e carregadas de sentimentos. No poema “Paisagem má”, traduzido por Campos e presente em seu livro “Verso, reverso, controverso”, o leitor é tomado pela náusea deste local sombrio que é a “praia dos ossos” e a criaturas presentes: o duende, a bruxa, a lavadeira branca e os anões de vozes melancólicas:

Paisagem má

Praia dos ossos. A onda estertora

Seus dobres, som a som, na areia.

Palude pálido. O luar devora

Grandes vermes- é a sua ceia.

 

Torpor de peste: somente a febre

Coze…O duende danado dorme.

A erva que fede vomita a lebre,

A Bruxa medrosa que se some.

 

A Lavadeira branca junta os

Trapos surrados dos defuntos,

Ao sol dos lobos…e os sapos. Ei-los

 

Anões de vozes melancólicas,

Que envenenam com suas cólicas

Os cogumelos, seus escabelos.

(CORBIÈRE, 2009, p.217)

O tom melancólico pode ser visto em seus poemas, assim como o humor, presente neste trecho de “Épitáfio”: “…Poeta, apesar do verso;/Artista sem arte,- ao inverso;/ Filósofo- vide-verso…” (Campos, 2009:231). Estas linhas trazem à memória alguns poemas de Paulo Leminski, como este em que ele se define de modo informal e sem seriedade alguma:

o pauloleminski

é um cachorro louco

que deve ser morto

a pau a pedra

a fogo a pique

senão é bem capaz

o filhadaputa

de fazer chover

em nosso piquenique

(LEMINSKI, 2013: 102)

Leminski e Corbière estão nesse espaço de desvio da norma e de resistência ao pensamento parnasiano. E outro poeta citado por Campos como integrante do grupo da antipoesia é Jules Laforgue (1860-1887) que, segundo Ezra Pound, é o descobridor da logopéia (Augusto de Campos a define como a dança das palavras no intelecto). Em “Penúltima palavra”, retirada também do livro de Campos, as palavras dizem o que é o espaço, o amor e o sonho, mas vacilam quando se referem ao poeta, sugerindo possibilidades:

Penúltima palavra

O Espaço?

– A vida

Ida

Sem traço.

 

O Amor?

– Seu preço:

Desprezo

E dor.

 

O sonho?

– Infinito,

É lindo

(Suponho).

 

Que vou

Fazer

Do ser

Que sou?

Isto;

Aquilo,

Aqui,

(LAFORGUE, 2009: 251)

A poesia destes poetas marginais do simbolismo traz a palavra crua, sem adornos e métricas, a fim de explorá-la ao máximo e sugerir ao leitor que reflita diante do poema. Esse gesto de deformação e reinvenção foi visto mais tarde com modernistas como Oswald de Andrade, cuja linguagem fragmentada, colhida do cotidiano, desfaz os limites entre prosa e poesia. Nos anos de 1970, a poesia marginal, praticada por Leminski e poetas como Cacaso e Torquato, resgata a essência da poesia pau-brasil de Oswald e da arte antropofágica.

Ou seja, essa reinvenção da poesia através da utilização da linguagem coloquial já poderia ser vista no simbolismo. Tanto Augusto de Campos quanto Leminski afirmam que no Brasil não houve simbolismo de fato- Campos chega a citar Cesário Verde como “talvez o único grande antipoeta simbolista em língua portuguesa”.

Porém, não podemos deixar de lado a colaboração de Cruz e Sousa para a poesia brasileira. Sua biografia, escrita de forma poética, informal e crítica por Leminski, nos mostra que houve um movimento de transgressão por parte de um negro num Brasil elitizado, como havia dito anteriormente.

Ao escrever sobre Cruz e Sousa, Paulo Leminski vai além do gesto de apenas falar sobre o biografado, pois há uma identificação, uma “dissolução do sujeito no objeto”, como afirma o próprio escritor. O que se estabelece entre os quatro poetas aqui analisados é um diálogo crítico entre seus poemas que utilizam o humor, o sexo e o melancólico nas simples palavras como modo reinvenção e desvio do fazer poético ditado pela formalidade parnasiana. Os olhares dirigem-se ao que está à margem e deslocam os poetas também para esta linha tênue.

 

 

 

[Beatriz Matos]

 

Referências Bibliográficas:

CAMPOS, Augusto de. “Antipoesia no simbolismo”. Verso, reverso, controverso. São Paulo: Perspectiva, 2009.

LEMINSKI, Paulo. “cruz e Sousa- o negro branco”. Vida: Cruz e Sousa, Bashô, Jesus e Trótski-4 biografias. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

_______________. Toda Poesia. 1ªed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

LIMA, Manoel Ricardo de. “Cruz e Sousa”. Entre percurso e vanguarda: alguma poesia de P. Leminski. São Paulo: Annablume; Fortaleza: Secult, 2002.

 

 

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